POEMIA

-.-.-..riso e caos nas noites de solidão -.-.-..

Tuesday, April 26, 2005

Tuberculosa

Qualquer motivo para escrever. Me fecho no escuro de todas as sombras. Em cada ambiente, a certeza de que um pensamento reina sobre outros, e os conduz. No peito, doem os sentidos. Dói. A pedra no sapato é o meu pé. Me reduzo, me encolho perante a vida, mas sem a profundidade de Lispector ou a sagacidade mordaz de Cony. Em toda restrição possível, a anulação de todo conteúdo inteligível, pronunciável ou certo. Um não dizer, um não fazer tamanho que não tudo. E resto tudo do nada. Aí repouso.


Agora que provaram a dor física do amor, compreendo a tuberculose no peito dos apaixonados. Viver e não ser correspondido – e eu não digo apenas “amor”, essa Roma destronada, ao contrário, eu digo das mínimas sensações da vida às quais não sei corresponder.


Olho no espelho e digo: você. A folha é pra mim um espelho onde escolho os traços que vou mostrar, reflito em cima da imagem que deixarei passar. É um espelho de mim, que ao ser visto reflete-se em quem olha.


O que é essa folha perante os livros que hoje vi? Apenas esboço de um retrato mal elaborado de mim. Apenas um jogo de palavras, sombreada pela vontade de escrever, pela necessidade de desafogar esse movimento ininterrupto da dor. Ando assim, buscando em cada sensação um motivo para rir ou chorar, sem muitas opções, tapando um buraco que me engole dia-a-dia, de um minuto a uma hora, de tempos imemoriáveis, longínquos.


Todos os meus desejos se realizam. Dos mais nobres aos mais mesquinhos e absurdos pedidos que se pode fazer numa vida como a minha, plena de nada, plena de superfícies impenetráveis, das muralhas em volta de mim que restringem qualquer movimentação possível. Tremo os dedos, condutores de uma obra de vida inacabada, difícil de realizar.


Difícil sorrir quando o dente não se mostra, difícil escrever quando a palavra não é sua amiga, mas seu algoz. São tantos, tantos livros escritos e eu, que vivi tão pouco, que faço dessa biblioteca inesgotável? Como posso lê-los todos, entende-los todos, e ainda assim, viver minha vida e escrever algo que ela se encarregará de me dar? Não posso lidar com a garganta aberta sufocada de energia presa, que não fala, gagueja e canta.


E eu nessa simbiose com a tristeza, esse caramujo de inércia.


Agora só me faltava o dicionário, ou a palavra cantada, de algum dos buarques.


Perante esse fracasso determinante dos vinte anos – mais parece que a vida acabou. Junto com a inspiração que se exige para se apaixonar por alguém ou pela lua, decidir que maiores que as crateras é o brilho dela, e não importa se ela é mutável e de várias faces. Assim o são as pessoas. Como a lua, guardam cicatrizes que são as marcas do próprio devir que é existir cá, materialmente como uma cebola ou uma joaninha, nos é impingindo desde o mais remoto dia dessa existência fatídica, medonha e – fortuitamente – viva.

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