POEMIA

-.-.-..riso e caos nas noites de solidão -.-.-..

Sunday, May 15, 2005

Devaneios vespertinos

[censurado]

E a moça lá, com as pernas abertas, pra cima, expondo-se à uma situação fictícia, uma anedota vulgar.

***

Mas tudo compensou-se por algumas amostras grátis que lhe tiraram o peso de alguns reais das costas. E fim.

***

Depois de 1 hora de ônibus, chegava ao destino. Rapidamente, foi em busca de sua professora, uma pessoa pouco mais velha que a turma, até mais nova do que um ou outro. Ela, sim, era uma pessoa gente boa. Tão gente boa que, se decepcionada, não deveria ser razoável.
A pobre cometera um deslize jornalístico de grave monta. Se pega, seu destino estava limitado. Ela seria apontada como uma pessoa sem ética, sem escrúpulos, sem profissionalismo, e, o que é pior: sem crédito, e sem respeito.

Ah!, mas que falta de sorte! Como pudera ser tão boba, tão ingênua. Temera uma nota baixa, e agora via-se na via crucis. Temerosa de seu futuro jornalístico, nem tão futuro, nem tão jornalístico.
O medo de ser apenas uma farsa. Novamente se alevantava o dilema de ser-alguém. Ah, que complicado dispor, em tempo integral, de tanta confiança em si, na vida, no mundo, nas pessoas. Tornara-se uma pessoa sem fé? Também não era assim. No peito, sempre dois caminhos apresentando-se possíveis – mas excludentes por obrigatoriedade: o pessimismo e o otimismo. Passava de um estado de exultante alegria e entusiasmo ao estado de profundo medo e terror. Que cansativo ao coração.

Lembra-se daquelas promessas que somos levados a não cumprir? Neste caso, bem, neste caso era por pura opção. Não fazia muito esforço em não ceder à tentação. Uma promessa basta ser quebrada uma única vez, para que seja preciso promete-la de novo, e de novo até. E de novo.
Foi aí que ela deu brecha para sentimentos de fraqueza. Até então, por mais que não estivesse bom, estava ao menos satisfatório! Mas ela passou rapidamente à prostração física, mental e espiritual. Não conseguia locomover seus impulsos nervosos.

Ficou em estado inoperante. Sistema nervoso desconectado. O resto do mundo que se arranjasse sem ela.

***

Voltamos ao início da narrativa. Ela vai embora, sôfrega, louca, quase desesperada. Não raciocina, apenas vai. Segue o corredor, e espera a chegada do carro. Bem, do ônibus – se hoje fosse antigamente, não haveria distinção clara entre o carro e o ônibus. É tudo veículo automotivo. Enfim.

Faltavam algumas poucas quadras para que ela descesse e seguisse até em casa. “Que alívio. Ainda tenho tempo de fazer a entrevista. Quantas horas?”. Olha no relógio – “Ah!, meu deus, os md’s estão comigo!”. Desespero pleno. Sistema operante desconectado. E agora, volto ou vou-me embora? O que direi aos meus colegas? Direi que tive um problema. Imaginou a cena: a colega à sua procura, querendo em mãos os md’s para mostrar aos calouros os exemplos da aula. Lembrou-se da despedida que fez a uma amiga: “Tchau!”. Fingiu que estava tudo bem, e foi embora. A colega diria: Ela disse que ia embora?
Imaginou tudo o que diria a eles. Não vou me justificar. Direi apenas que tive um problema, pessoal e intransferível, e tive que partir, rapidamente, para resolve-lo. Imaginou os dois colegas de oficinas nervosos, decepcionados, frustrados por seu desmazelo. Sua testa estava quente, um sinal da dor-de-cabeça vindoura. Não agüentava mais o sol, o ônibus, o sacolejo, os rostos, as paradas, os sinais, os letreiros, os carros, as ultrapassagens, o tempo passando, a oficina acabando, e eu aqui, a entrevista, o último dia.

Não desceu. O ponto em que deveria descer lentamente para trás. Ela olhou com inveja os passageiros na calçada, desejosa de sua liberdade. Decidira voltar, entregar os md’s, e na saída dizer – “Pessoal e intransferível. Peçam desculpas aos alunos. E digam o que quiserem ao professor”.

Quando estava a algumas quadras da parada no campus, lembrou-se, assim como ainda agora há pouco acontecera, que os md’s não seriam utilizados no momento. O cabo estava estragado, e não haveria como gravar nada. Meu deus. A paranóia não lhe permitira o raciocínio. Riu. Aliviou-se tanto que não chegou a se importar com a viagem perdida.

Desceu. Foi até o laboratório, estavam todos lá, menos a colega. Entregou os md’s, e foi embora, quase correndo. Ainda passou no laboratório, escreveu um pouco. De repente, ficou feliz. Não adianta ser infeliz. Preocupar-se, não dormir. Não, a vida não permite essa espécie de desperdício. Por fim, antes de descer, sua agonia era tanta, que levantou do banco dois pontos antes, e ficou em pé, um pouco apertada na saída. Alguém esbarra nela, olha pra trás e sorri um sorriso involuntário. Era uma menina de lenço preto na cabeça, rosto branco e redondo, olhos pequenos e brilhantes. Também lhe sorrira – de propósito. Segurou com a mão esquerda na mesma barra que ela segurava. Ficou mais apertada ainda, mas não se importava. Estava feliz por estar chegando, finalmente, ao fim da viagem. Não queria mais saber de entrevista. Só queria saber de chegar em casa.
Notou o braço da menina de lenço roçando de leve no seu. Um instante antes de descer, sentiu a maciez daquele braço. Olhou, numa perspectiva única. Não havia ali no antebraço um pêlo sequer. Olhou a nuca da menina, quase escondida pelo lenço. Não, ali não havia cabelos. Olhou-lhe o rosto. Ela olhou de volta, com um outro sorriso nos lábios. Mais marota. Ela estava feliz, dava até para ver. Olhou seus olhos pequenos. Reparou a sobrancelha pequena, preta, escura. Ainda firmou o foco, mas não pode dizer se eram pintadas ou não.
Quando desceram do ônibus, primeiro a menina, depois ela, concluiu: essa menina, de nem 20 vinte anos, nasceu com o câncer, e agora, aos nem 20 anos, sobreviveu a ele.

Viva a vida.

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