POEMIA

-.-.-..riso e caos nas noites de solidão -.-.-..

Friday, May 20, 2005

História sem pé nem cabeça

Era uma vez um menino que andava num pé só. Todos os dias ele cruzava a ponte do Arvoredo, e passava ao lado da casa com a Figueira. O nome do menino é – João. Quando se aproximou da contenda de sua vizinha, o menino João encontrou seu arquiinimigo, Caduceu.

À primeira vista, Caduceu passou despercebido das vistas de João. Mas, quando João se apercebeu, não suportou a o desejo da intriga:

“Caduceu, seu canalha! Você vai se ver comigo!”.

O ofendido recuou, surpreso, e, não menos corajoso:

“Qui é qui há, falso Romeu? Tu não passas da onde tu vens! Continuarás a dormir em meio aos parcos, ou melhor, aos porcos, ressonando em suas cacundas!”.

João se aproximou, andando rápido, pisando pelos calcanhares. Sua fúria passava lentamente da saliva, boca a fora, indo cuspir na cara de Caduceu.

“Bastardo! Quem é qui pensas que é? Um príncipe? Um rei? Um filho de deus? Não passas de um náufrago neste mundo! Teu poder mental é pequeno como tua destreza com as palavras. Sugiro que deixe-as de lado!”

Em redor, os passantes apararam-se da discussão. Qual o motivo de tantos insultos? Qual a motivo da história? O que pode ser? Os curiosos indagavam. Os tímidos se questionavam. E até aqueles sem muito interesse na vida tentaram-se a indagar.

A distância entre ambos era menor que uma légua. Caduceu era poderoso. Tinha o dom da música, e da destreza mental. O que João dizia era bobagem? “Tolice”, pensava ele. Tudo o levava a crer que João invejava-o, todas suas qualidades traziam a João má sorte no pensamento.


Quando João propôs-se a continuar a discussão, Caduceu recusou. Partiu, sereno, daquela esquina, e sentou-se na sorveteria da praça da Pêra.


João era um menino que pulava num pé só porque se esquecera da outra perna, sadia. Esquecera-se de quem ele era, e com suas imagens de si, da memória e da lembrança, João perdera a perna. Desde então, quase levita como um pássaro, de tanta descompromisso aquilo lhe trouxera. Por isso não temia dizer qualquer coisa que fosse. E dizia.


Depois de muitos anos passados, João viu-se diante deste fato, agora antigo e relembrado. Não era o primeiro pensamento ruim que encontrava adormecido na rede da memória. À lembrança da briga João sentiu-se exasperado. Não queria mais ser daquela maneira.


Questionou-se se estava perto de morrer. Achava que gente próxima da morte que relembra a vida, e faz julgamentos sobre ela, arrependendo-se ou orgulhando-se. Não. Não era nada disso. Não dessa vez – talvez, em um outro momento. João, que agora já não é um menino, mas um homem-abacaxi, maduro, encontra sua outra perna.


E é (in)feliz para todo o sempre!

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