Me dá um cigarro?
Sempre me atraíram as coisas obscuras. Este deve ter sido o causador dos problemas que criei e enfrentei durante a minha vida. (Escrever no escuro é mais aconchegante. Perdi a prática com a poesia, e agora só escrevo textos intimistas).
Gosto de ser uma figura da noite, como as dos filmes. O imaginário de Hollywood, neste quesito noir, sempre me seduziu. Quando estou com o espírito negro, penso em como me sentiria em casa se estivesse em uma daquelas ruas escuras de Nova Iorque, com aquela fumaça branca no ar, usando um grande casaco preto e uma echarpe colorida de lã, e caminhando altiva, com a palidez da pele reluzindo sob as poucas luzes das ruas escuras.
Eu entraria em algum bar, boate ou café. Me sentaria no balcão e pediria a bebida mais forte (claro) que eu pudesse pagar. Pegaria um cigarro, e o homem ao lado me ofereceria o isqueiro. Ele perguntaria: “De onde você vem?”, e eu lhe responderia: “Você sabe qual a capital do Brasil?”. “Não”. “É de lá que eu vim”.
Eu daria um trago na bebida e no cigarro. Ele, feio, sorriria para mim, mas eu, desconfiada, permaneceria calada e séria. O homem se ofenderia. E me diria: “Bitch”. O barman loiro olharia pra ele com sinal de reprovação, e com um gesto de cabeça, lhe indicaria outro lugar. O amigo do homem levantaria e iria embora com ele.
O barman, orgulhoso, me daria um drinque por conta da casa, e eu, quebrada, aceitaria.
Mas, onde vivo, não há perspectiva alguma de noites sombrias. Onde moro as praças são verdes e floridas, os canteiros são iluminados e cheiram a dama-da-noite. Não há bares ou botecos abertos no domingo à noite. Não há onde comprar cigarros picados.
Depois de caminhar vinte minutos à procura de algum estabelecimento aberto, excetuando as pizzarias e restaurantes chiques, nada encontrei. Fiz o retorno para casa, com o peso da humilhação escorrendo nas minhas lágrimas. Descendo pela praça, vi dois artesãos hippies empacotando seus panos. O branco fumava um cigarro. Tinha cara de paulista ou de argentino. pedi um cigarro. O outro, moreno, de olhos, boca e nariz grandes, tomou a carteira do outro, tirou um cigarro e me deu. Depois disse: “Leva a carteira. Pode ficar com ela”.
Eu não pude acreditar. A carteira ainda tinha uns quinze cigarros. Eu fiquei muito feliz. Depois de toda aquela aflição por um cigarro, os caras me oferecendo uma carteira cheia deles!
Não aceitei. Ele insistiu. O dono da carteira concordou, sem problemas. Me deu a carteira nas mãos, eu devolvi para o dono. O homem narigudo, bêbado, tomou a carteira e a entregou-me novamente. Recusei. Devolvi-a novamente. O bêbado, insistente, ofereceu ainda uma vez. “Não, obrigada”.
O gringo tomou a carteira do amigo. “Então me dá isso aqui”.
Ah!, sua burra, por que não aceitou? Por educação? Mas você não era uma criatura da noite? Hahaha. Engano seu, tolinha. Você é tímida demais, educada demais, retraída demais para ser uma criatura da noite. Tudo o que você queria lhe é oferecido em uma dose quinze vezes maior, e você não aceita.
Descendo a rua, ainda olhou para trás. O bêbado seguiu pela direita, pelo caminha que eu seguira há uns vinte minutos atrás, em busca do cigarro. O gringo foi pela esquerda, pelo caminho que eu retornara ainda agora. Pensei em volver e dizer: “Mudei de idéia”. Por que não o fiz? Fraqueza de espírito.
Espero nunca fazer isso com uma oferta de trabalho. Depois dessa, eu deveria parar de fumar.

1 Comments:
Toh comentando meio atrasado, mas eu tinha q comentar nesse. Pq adorei a crônica(historia sei lah), e fiquei pensando vc jah me parece tão perto dessa criatura da noite(sem querer ofender) e fiquei imaginando como eu queria chegar só um pouquinho perto do perto q vc me parece estar da sua imaginação.
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