Meu Mundo Caiu
Meu mundo caiu. As hastes de concreto que eu utilizava para firmar meus ideais esmoreceram à passagem do furacão. Meus braços desarmados penderam pesados para frente e para trás. Ceguei à visão de Deus. Tampou-me a visão o esvoaçar da cabeleira castanha. Os fios grossos feriam o meu olho esquerdo. Tombei com os joelhos no chão, por sobre pedregulhos que, vi, eram restos de ossos fragilizados pela erosão do tempo.
Não morri. Sobrevivi à tempestade como a descabelada negrinha raiz, tonta e frágil, que, ingênua, pedia ao vento, cecília, que por piedade não a arrancasse. Por piedade, pedi a Deus que não me levasse. Ainda se minha vida pertencesse só a mim – mas não. A tantas outras que falta ela faria! Portanto, “suplico, não me leve daqui”. Não estou pronta para morrer.
Dizendo isto, Deus segurou pelas ventas o assobio do vento, e decretou o fim da tempestade de cabelos que tanto me cegou a visão. Senti-me abençoada, como os anjos se sentem quando Deus senta a mão em suas cabeças.
Deus tem mão? Deus tem mãe? Deus é filho de chocadeira? Deus é herege?
É engraçado como os valores são apenas valores. Desprovidos de crença, nada valem. São palavras ao vento, aquele mesmo vento que sopra os cabelos e tampa a visão. Tudo cega. A crença e a descrença. A graça e a desgraça. A solidão e a multidão.
O que é traição? Pode-se muito bem trair por pensamento, mas aí, o traído é o próprio ser que pensa a traição. Pois, se ele se contenta em apenas trair pelo pensamento, trai suas vontades. Ela não deixa de existir, mesmo que a traição carnal, material, não se efetive, não aconteça de fato. O outro é traído de qualquer maneira. Imagine que você conte ao seu parceiro que teve um sonho erótico com um amigo, ou amiga. Estará plantada a semente do ciúme e da desconfiança, e a relação poderá se abalar tanto quanto qualquer outra em que a traição tenha se consumado no plano das coisas. Porque uma traição em pensamento existe por si só, e se ela não é executada, deve-se a uma série de fatores circunstanciais, como falta de oportunidade, coragem ou interesse do objeto de desejo. Ainda, é claro, por temeridade da ofensa moral ao outro, por quem geralmente nutre-se uma ordem qualquer de respeito e afeto, que são, inegavelmente, fontes de eterna ressalva.
Portanto, trair é uma coisa que escapa à vigilância do outro. Trai-se sorrateiramente, silenciosamente. Na quietude da noite, dos sonhos, trai-se até com o Ministro Maior da República.
Para o próximo questionamento, é interessante pensar-se como um juiz de valores. Imagine-se, portanto, em uma corte, onde se definem as leis cíveis de um país. É chegado o momento de posicionar a Vara Familiar da Justiça Federal. O que é moralmente mais degradante? Ser o traidor, ou o traído? Sublinho aqui o pressuposto de que o acontecimento da traição seja de conhecimento de toda a comunidade na qual vive o indivíduo, e que todos pensarão algo a seu respeito. Nada que possa vir a ferir fisicamente a vida do outro, mas que de alguma maneira altere sua vida na medida em que os outros passarão a tratá-lo de uma maneira diferente após o exposto da traição.
É pior ser visto como traidor ou traído?
Ser o traído é mais humilhante, com toda certeza. Mas ser o traidor faz da pessoa um pária, um púria, um mal sem remédio. Todos desconfiarão de sua figura, e tanto mais difícil se tornará iniciar um novo relacionamento. Existem sempre aqueles aos quais não faz diferença a opinião alheia, mas de qualquer maneira os rumos de uma vida podem, e em muitas vezes são, alterados pelo comportamento de outras pessoas.
Deus foi traído por seu anjo mais próximo. Mas, se era esse anjo tão bom camarada, como pôde Deus cegar-se à sua inveja, se até nos, reles seres humanos, percebemos ou somos avisados, intuitivamente, de um quebranto em nossas vidas? Deus é um cara ingênuo. Acredita na sua criação humana. Nós, seres humanos, somos animais racionais. Antes de sermos racionais, somos animais. Portanto, tira-se a conclusão que sempre o instinto deverá ser domado pela socialização e pelo processo de inserção cultural do indivíduo.
Não posso afirmar categoricamente, como o poderia fazer um sociólogo, mas acredito que em praticamente todas as culturas duas coisas são abominadas e punidas. Uma já é sabida de quase todos – o incesto. A outra é a traição. O conceito de traição existe em qualquer cultura. Acredito eu.
Duas páginas de pensamentos puramente dedutivos. Nada que fará o rumo da humanidade tornar à direita ou à esquerda. Meu querido amigo jornalista P.K. disse que, se ele soubesse matemática, viraria engenheiro. Se gostasse de cuidar de animais, viraria veterinário. Mas, como só sabe, e só gosta, de escrever – minto, também gosta de tocar guitarra, mas não sabemos se toca tão bem quanto escreve – disse que tem que aprender a ganhar a vida escrevendo. Eu quero muito comprar seu livro. Faço a maior questão.Por que será que fazemos questão de algumas pessoas? Por que sentimos empatia? Por que, mesmo gostando de uma pessoa, não conseguimos conviver com elas?
(... trecho censurado por envolver outras pessoas que não eu...)
Sinto raiva por não poder sentir raiva. Mas eu compreendo suas atitudes e sei que ele fez a coisa certa.
(...)
Por mais que, às vezes, não pareça. Mas a vida na Terra pode se tornar um verdadeiro inferno. Uma sala de jantar belíssima, cujos pratos estão podres. Pessoas cujas roupas estão rotas. Cujas almas estão escuras. Cuja implicância com o outro é maior que o amor. Um amor camuflado perde a respiração. E morre, como qualquer ser vivo. Será que o amor é um ser vivo?
Eu vi minha família desmoronando e não fiz muito em relação a isso. Eu também fazia parte da falência. Um dia, ela foi decretada. E todas as minhas ações na bolsa de valores familiares caíram pela metade.

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