POEMIA

-.-.-..riso e caos nas noites de solidão -.-.-..

Saturday, September 03, 2005

Sobre o tempo que passa

Goiânia, 14 de agosto de 2005.


[De volta de uma viagem de três dias a Brasília, com a sensação de saudade consolada, pronta para renascer com o fim de cada dia]


Mas, bem, como eu ia dizendo…


Quase todos os ocidentais conhecem a figura de Cronos, primeiro filho do Céu com a Terra, e senhor do Tempo. O tempo é algo fascinante. Ele provoca em nós a saudade, a melancolia, a angústia, a pressa, a calma, a memória, o esquecimento. No plano das coisas, do palpável e do imediato perceptível, o crescimento e a perda. Graças ao tempo alguns objetos deixam de ter utilidade ou valor, algumas pessoas passam a não significar coisa alguma, os valores e gostos se transformam.

Cronos é também denominado Saturno. Seu único amigo é Plutão, ou Hades, que é seu filho. Hades é ainda irmão de Zeus, senhor dos céus, chamado Júpiter, e Poseidon, ou Netuno, senhor dos oceanos. Hades é senhor do mundo subterrâneo, do Inferno. É guardião das almas, sejam elas boas ou más. Todos devem ir a ele após a morte. Enfim, apenas duas figuras entram em contato com Hades: seu pai, Cronos, e sua esposa, Perséfone. Além deles, ninguém mais.

Hades personifica o conceito de morte, de finalização, de fim de ciclo. Os ciclos são sempre representados como círculos, como algo que não tem ponta, não tem início e não tem fim. Em outras palavras, isso implica na não existência do fim, na não-morte, pois que a morte é o primeiro passo para uma outra vida, uma outra existência, no mesmo plano ou em outro. A própria biologia de Lavoisier nos prova que “Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Os místicos apoderam-se dessa máxima para afirmar que a energia de um ser vivo não se esgota, e que a vida desse indivíduo permanece, ainda que de outra forma. A conseqüência última é a da transformação. Gostaria de relembrar também a dicotomia espaço-tempo, indispensável para a completa compreensão da utilidade do tempo e de sua manifestação no plano material.

Digamos, por exemplo, que o tempo nunca nos levasse nada. Quantas coisas não carregaríamos? É preciso muita diligência para se pensar uma situação como essa. Imagine todas as coisas que acumularíamos se o tempo não as desgastasse ou não as transformasse o valor. Todas as suas roupas de criança, os sapatos, as fraldas, os bicos, as mamadeiras. Os uniformes de colégio, os cadernos, os brinquedos. Os objetos de higiene pessoal, como escovas de dente e cremes.

Mas, mais complicado do que guardar tantos objetos, adquiridos dia-a-dia durante a existência, é o papel que as pessoas têm na vida umas das outras, e que se transforma com o tempo. Seria possível que se mantivesse contato com todas as pessoas das quais um dia foi-se amigo, ou mesmo conhecido? É engraçado como a amizade é algo muito valorado pela sociedade ocidental. Diz-se que a verdadeira amizade resiste ao tempo e ao espaço, ou melhor, à distância. Eu não concordo. Acredito que algo verdadeiro não precisa assim ser eternamente. Só o tempo é eterno, e nada mais além poderia ser. A modificação das condições externas são ininterruptas, e a transformação da matéria e da energia já foi cientificamente comprovada pela famosa constatação de Lavoisier. Não, uma pessoa não precisa ser amiga de outra até a morte de uma das duas para que sua amizade verdadeira possa assim ser considerada. Nem um casal deve viver junto para sempre. Não há lei natural, biológica, que implique na fidelidade eterna de um homem e uma mulher. Muito menos quando se trata de casais homossexuais, que não se reproduzem. Portanto, digo: o Senhor do Tempo, com sua foice, tem como atributo principal a morte (e a transformação feita por seu filho Hades), mas mesmo ela não é absoluta, pois há algo que não é possível de ser transformado: o passado. Cronos força os elementos à transformação, mas cristaliza tudo o que passou. Por isso não se muda uma ação acontecida. “A fala é muito poderosa, pois ela não tem volta, apesar de não ter garantia. Se escrevo, posso apagar antes que leiam. Tampouco o fato de escrever algo significa que aquilo é verdade, ou deveria ser.”
[1]

No fundo, isso significa um consolo para aqueles que não aceitam as imposições do tempo futuro – a velhice, a morte, a perda, a transformação. Geralmente essas pessoas, quando não conseguem canalizar bem essa etapa, têm sua alegria residente na memória de fatos e glórias passados, e podem até viver dele. Como um homem que conheci quando fui ao museu da cidade onde moro. O museu é, na verdade, a casa do fundador oficial da cidade, o seu primeiro prefeito. Seu neto é um dos responsáveis por apresentar o museu-residência aos visitantes. Não é preciso muita perspicácia para ver que aquele homem não tem sua própria vida, e vive do passado da vida de outro homem – seu avô. Dadas as condições do museu, sua pouca freqüência por pessoas que não estejam com interesse acadêmico, jornalístico, turísticos ou estudantes primários, e a figura do neto do Dr. Pedro Ludovico Teixeira, concluí rapidamente que aquele pobre homem não se deixou levar pelo tempo. Talvez seu avô esteja mais vivo do que ele.

Já uma senhora de idade que tenho o prazer e privilégio de conhecer disse que não faz questão de guardar lembrança alguma, e que tudo esquece por vontade própria. Ela diz que não pensa no passado. Ela é dinâmica demais para tanto.





[1] Trecho do texto “Eu só comei a fazer jornalismo, há 3 anos atrás, porque me expresso melhor na escrita do que na fala”, de 05/08/2004, há 1 ano e 9 dias atrás.

1 Comments:

At 4:22 PM, Blogger Gloria P. said...

"Acredito que algo verdadeiro não precisa assim ser eternamente.". Adorei isso. Aliás, um conselho de que estava precisando.
Sobre escrever melhor do que falar (o que também é o meu caso), Clarisse Lispector já disse: "Escrevo por profundamente QUERER falar". Não se cale... =) Beijos!

 

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